
De onde se conclui que, sendo honesto e indo directamente ao cerne da questão, é um livro que será sempre apaixonante; que o Mr. Darcy é, por excelência, o homem mais perfeito de toda a literatura universal – tirando talvez o Andrei Bolkonski que, pela neurose, consegue ganhar; e que esta frase resume em poucas palavras o porquê de eu ser como sou socialmente:
“I certainly have not the talent which some people posess”, said Darcy, “of conversing easily with those I have never seen before. I cannot catch their tone of conversation, or appear interested in their concerns, as I often see done.”
Quanto à minha telenovela (a.k.a Project Runway), tenho que protestar contra a Sic Mulher, que anda a repetir demasiados episódios; esta semana só passou um novo ontem, e hoje não há por causa daquele programa assim horrível da Liliana Campos, em que fazem transformações a pessoas tornando-as pindéricas e mal vestidas. Mas quanto ao episódio de ontem… descobri que parte de mim se identifica um bocado com a Kenley. Tudo bem que ela é arrogante e tem aquela atitude mal-educada, mas talvez tenha as suas razões para ser assim, e não merece tamanha dose de cabrice por parte dos colegas. Eu sei como é, porque já estive naquela posição. E não, também não me apetecia fazer de conta que gostava muito das pessoas com quem trabalhava porque sabia que era difamada pelas costas/que ninguém se ralava se estava a ser simpática ou não. Nunca fui muito de fingir aquilo que sinto nesse campo. Se gosto das pessoas, óptimo, beijinhos e abraços e sorrisos. Se não gosto das pessoas, se noto que há atrito e se, principalmente, sei que esse atrito é por causa de porcariazinhas que se andam a dizer e que nem sequer têm a decência de mas dizer na cara, meus amigos, passem bem. Faço o meu trabalho a um canto sem incomodar ninguém e sinto-me a melhor do mundo quando sou elogiada e eles não. Estou a falar, claro, do grupo com que trabalhava no Porto. Há excepção de uma única pessoa, que, essa sim, se tentou preocupar comigo. Portanto, força nisso, Kenley, estou contigo!
O mais estúpido dessa situação – sim, porque agora que comecei não consigo parar – foi que estava a ser tratada daquela maneira por pessoas que me tinham visto no meu auge social uma questão de meses antes. E eu no meu auge social, ou seja, quando ando bem-disposta e em paz com o mundo, sou um encanto de pessoa. Pronto, não quero exagerar; mas consigo ser afável, simpática, com o humor ali nos píncaros e amiga de toda a gente, sempre prestável e pronta a tudo. Ou seja, pretty good, huh? E aqueles … não lhes chamemos nomes, conheceram-me numa dessas fases. E gostaram de mim durante essa fase. E saíram comigo, e riram-se comigo, e disseram-me que eu era isto e aquilo. Bastou apenas um deles dar cabo da minha vidinha na altura para toda a gente, e sublinho “toda a gente”, se afastar, o que me levou a concluir que talvez não me achassem assim tão stellar e fosse tudo por favor ao outro. Foi das coisas que mais me magoou, talvez até mais do que a situação com a pessoa em si. Porque, na altura, daquele lado, já esperava tudo de mau. Agora não esperava tamanha falsidade, cinismo e sacanice de pessoas que se tinham mostrado, sinceramente, minhas amigas. Portanto amuei, amuei durante o resto do tempo que lá fiquei; arranjei amigos a sério, sobre os quais já aqui escrevi e mesmo aqueles com quem não estava todos os dias se mostravam mais prestáveis. Como também já disse, tenho que agradecer a uma única pessoa desse grupo que conseguia sair daquela bolha anti-eu para se mostrar prestável e não tenho nada que apontar. Se ela se fartou de tentar, a culpa foi minha. Porque não tinha mesmo qualquer interesse em me integrar num grupo de pessoas assim. Que quando confrontados se faziam de santos, que nunca me tinham feito nada, e que era eu que os punha de parte. Mas é claro que punha! Mas e agora pensar um pouco para chegar aos porquês, está quieto. Ainda tentei. Sempre achei que num grupo de trabalho, particularmente naquela situação em que estávamos todos a estagiar no mesmo espacinho, se devia tentar ignorar que nos odiávamos pelo menos por três horas de manhã e hora e meia à tarde para criar bom ambiente. Mas quando os outros não são capazes de fazer isso, não esperem que eu seja a parva, sonsa e ingénua que o vai fazer. Tenho pelinho na venta. E foi esta situação que me fez chegar ao ponto de arrogância social em que estou hoje, que não estou, pura e simplesmente, para aturar merdas de ninguém e que me tento integrar com a fasquia bem lá em baixo sem esperar nada de ninguém. O que vem, óptimo. O que não vem, também não o esperava. Embora às vezes… ainda espere.
Quanto ao grupo de trabalho novo, é, por enquanto, uma diferença avassaladora. Embora ainda não esteja bem integrada porque… sou eu, consigo ver que há ali diferenças que me fazem sentir bem onde estou.
E é assim.
